sexta-feira, 1 de março de 2013
Autora de best-seller acusada de plágio
Este caso divulgado pela mídia neste link me fez pensar no "ghost-writer", uma forma de autoria dos bastidores, quando outras pessoas criam parte ou a íntegra de uma obra e cedem ou comercializam com quem publicamente aparecerá como autor. É o que acontece por exemplo no caso de um amigo já formado que "dá" o trabalho científico que fez há anos para alguém que está se formando na atualidade com a finalidade de reaproveitamento, ou mesmo, o caso de pessoas que "vendem" trabalhos científicos prontos de acordo com a demanda da clientela, numa espécie de self-service no fast-food do conhecimento na era da internet.
Ainda que do ponto de vista do direito moral a autoria seja instransmissível, o grande jurista Antônio Chaves bem observou em sua obra "Criador da obra intelectual", que “escritores ‘fantasmas’ sempre existiram e continuarão pelo tempo afora, numa prática cada vez mais frequente e difícil de ser reprimida” (1995, p. 27). Escritores famosos como Shakespeare e Alexandre Dumas e até mesmo estadistas como Ronald Reagan foram envolvidos em casos deste gênero. No entanto, geralmente o "escritor fantasma" que assim atua profissionalmente não costuma assumir seu papel alcoviteiro pois isto representaria para ele o fim de seu negócio, ou seja, quanto menos ele aparecer, mais trabalho pode ter... Do ponto de vista ético e jurídico é muito difícil punir o "ghost-writer", seja por ser um anônimo ou porque não formaliza sua queixa de autor de bastidor. Assim o recurso a este trabalho a quatro mãos, pode se tornar um hábito de criação que compromete o desenvolvimento do talento da criatividade e corrompe o hábito do esforço e da dedicação no processo de criação autoral. Assim, desenvolve-se o costume de reaproveitar ideias alheias como uma prática comportamental naturalizada cujo diagnóstico dispensa titulação médica.
Penso que este caso é uma excelente oportunidade para refletir e debater o papel autoral do orientador de trabalhos acadêmicos, uma autoria fantasma às avessas. Numa atividade que em geral consiste numa relação formal de interlocução intelectual, que tem o escopo de contribuir no processo de criação científica e cuja culminância é a redação do trabalho escrito, o que invariavelmente é feito pelo orientado. Entretanto, diferentemente dos casos de autoria fantasma no campo da literatura, no âmbito acadêmico o fantasma reivindica e assina junto quando o trabalho é publicado. Não importa! Em ambos os casos a autoria é assombrada.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Ministra alemã da educação terá de devolver diploma por plágio
A decisão da Universidade de Dusseldorf de cassar o diploma da Ministra da Educação após ter sido constatada a ocorrência de plágio em vários trechos da tese de doutorado dela acompanha uma tendência que já levou outras autoridades à perda de seus títulos. E se pode esperar que muitos outros casos semelhantes ainda virão à público. É que a temporada de "caça aos plagiários" está aberta na Alemanha e websites como o GuttenPlag e o VroniPlag, mantidos por acadêmicos e voluntários anônimos têm se dedicado exclusivamente a fazer o escaneamento em softwares de detecção do plágio dos trabalhos acadêmicos feitos por acadêmicos ilustres. A julgar pelos casos recentes, pode-se esperar um efeito dominó envolvendo muito outros trabalhos acadêmicos... Diante disto, duas observações importantes:
1) Se este tipo de ação for expandida e passar a ser realizada em outros lugares como, por exemplo, no Brasil, os resultados obtidos não serão muito diferentes: vários trabalhos serão identificados com passagens plagiadas. Por que? Nem sempre o plágio acadêmico ocorre por má-fé e a falta de precisão na identificação das fontes, desconhecimento ou negligência quanto ao uso das regras de documentação científica ou mesmo desorganização durante a redação do trabalho, são alguns dos fatores que podem ocasionar a ocorrência do plágio acidental. Contudo, isto não justifica a ocorrência do plágio, pois a ausência de intencionalidade não é suficiente para absolver responsabilidades. O que cabe pensar diante disto é que apesar do plágio ser um problema bastante antigo, é um assunto complexo que não se enfrenta apenas com medidas punitivas. É preciso reconhecer que no processo de formação científica a dedicação aos estudos de criação, redação científica e mesmo conhecimento sobre o plágio são assuntos que têm quase ou nenhum espaço nos programas de ensino das universidades. Neste caso, a cobrança ou mesmo a punição sobre condutas indesejadas, mas que não foram ensinadas ou sequer consideradas como objeto de aprendizagem para que fossem identificadas e evitadas é algo que precisa ser no mínimo repensado sob o risco de se instituir mecanismos de controle ineficazes por agirem especificamente sobre efeitos indesejados enquanto que seria muito mais proveitoso o investimento de esforços relacionados à identificação e tratamento das causas da ocorrência. Esta observação leva ao segundo ponto:
2) Antes que estas iniciativas de "caça às bruxas" virarem moda, é muito mais interessante que as instituições reflitam em que medida têm se preocupado e contribuído para que seus acadêmicos tenham um desempenho indelével. Este tipo de iniciativa, além de evitar um olhar retrospectivo que no máximo serve como condição importante para análises diagnósticas, direciona o foco das atenções para o desenvolvimento de ações voltadas para a prevenção da ocorrência do plágio em trabalhos acadêmicos daqui para a frente.
A grande importância da identificação dos erros cometidos no passado está nas lições que se pode aprender por meio deles para que se evite a sua reprodução na atualidade e no futuro. Entretanto, isto ainda é um desafio a ser assumido no enfrentamento do plágio acadêmico, pois ainda repercute muito mais os casos de ocorrência e punição do que o debate sobre ideias e estratégias que podem contribuir para que este problema seja minimizado. E embora não tenham tanta repercussão, iniciativas internacionais têm avançado neste sentido em diversas áreas: na promoção da cultura de integridade acadêmica; na utilização de formas alternativas para a apresentação de relatórios de pesquisa; na disponibilização generalizada de informações sobre o plágio entre os acadêmicos, entre outras. Em suma, são ações que refletem as preocupações educativas das instituições muito mais do que as punitivas. O que de fato interessa!
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Center for International Media Ethics
O Center for International Media Ethics engajou-se no enfrentamento do plágio e durante 2013 vai desenvolver uma série de entrevistas e matérias sobre o assunto. Na primeira entrevista publicada são apresentados alguns aspectos e características que auxiliam na compreensão do plágio bem como algumas pistas relacionadas a prevenção. Confira clicando aqui neste link.
Indicação na Folha
O livro "Autoria e plágio" foi indicado como "bibliografia ótima" na seçao de livros jurídicos do caderno Cotidiano da Folha de São Paulo, publicada em 03 de novembro de 2012.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
International Academic Network
Incentivando o fortalecimento e engajamento de esforços globais para o enfrentamento do plágio acadêmico, a instituição inglesa Plagiarismadvice.org apresenta um staff de pesquisadores e especialistas comprometidos com o combate ao plágio ao redor do mundo. Veja a lista aqui.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Projeto de lei sobre publicação de TCC
O PLS 199/2012 que propõe alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação com a finalidade de tornar obrigatória a publicação de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) estratégia que tem a finalidade de influenciar na redução da ocorrência de plágio mediante a visibilidade pública dos trabalhos feitos pelos estudantes foi incluída na pauta da reunião da Comissão de Educação, Cultura e Esporte que acontecerá neste dia 13/11/2012. Defendemos a iniciativa e desejamos que seja aprovada implementada!
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Aberta a temporada de caça ao plágio na Alemanha
A variedade de casos de identificação de plágio em trabalhos acadêmicos de autoridades alemãs tem sido resultado de um movimento que está sendo feito naquele país por pelo menos três comunidades da internet que têm se dedicado a fazer a varredura em busca de similaridades sem a devida identificação das fontes em textos acadêmicos. Estes grupos formados por acadêmicos, pessoas voluntárias e anônimas, tem sido chamados de "caçadores de plágio", são eles: Plagipedi, GuttenPlag e VroniPlag
Todas estas iniciativas são importantes, porque incidem contra a banalização do plágio. Entretando é fundamental observar que elas apontam todas para o passado, investigando a ocorrência do plágio em trabalhos que já foram realizados, alguns há mais de 20 anos... Contudo, o enfrentamento do plágio, mais do que uma postura de "caça" precisa ser feita com o propósito de "educação" de quem está aprendendo a escrever ciência de modo que evite esta ocorrência indesejável nos atuais e futuros trabalhos acadêmicos.
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